28 de mai. de 2014

Texto - Saúde Complementar



Saúde Complementar

CFP comemora novas regras para cobertura dos planos de saúde.Entraram em vigor no início de junho as novas regras estabelecidas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para a cobertura mínima obrigatória oferecida pelos planos de saúde.Alguns dos 70 procedimentos incluídos estão relacionados à Psicologia,

Destacam-se, como pontos positivos, a ampliação de consultas ambulatoriais e procedimentos de Psicologia e outras em saúde mental, e também a inclusão de princípios da reforma psiquiátrica antimanicomial na cobertura obrigatória, por meio sobretudo da obrigatoriedade do atendimento cotidiano em hospital-dia. Segue abaixo detalhes das conquistas e desafios.

1) A ampliação da cobertura para saúde mental, na direção do que preconiza a Lei 10216/01, foi grande avanço na nova resolução da ANS.

Uma mudança positiva é a incorporação, no novo rol de procedimentos, de regulação da atenção à saúde mental na saúde suplementar. A nova Resolução da ANS (número 211) traz diversas conquistas, todas elas frutos diretos de persistente e qualificada gestão do CFP.

O artigo 3º da resolução incorpora, como princípio, a “adoção de medidas que evitem a estigmatização e a institucionalização dos portadores de transtornos mentais, visando o aumento de sua autonomia".

Outra grande conquista é que a atenção prestada aos portadores de transtornos mentais deverá priorizar o atendimento ambulatorial e em consultórios, utilizando a internação psiquiátrica apenas como último recurso terapêutico.

Foi incorporado é a cobertura obrigatória de todos os procedimentos clínicos ou cirúrgicos decorrentes de transtornos mentais, inclusive aqueles necessários ao atendimento das lesões auto-infligidas.

O atendimento/acompanhamento em hospital-dia é mais uma enorme conquista. Agora, casos graves em saúde mental podem ser atendidos em serviço abertos de atenção

Ainda que, para o CFP, o ideal fosse não haver restrição alguma a CIDs, mas um critério de gravidade de cada caso, o avanço possível, neste momento, foi obtido, com cobertura obrigatória desde que preenchidos alguns critérios, explícitos nas diretrizes de utilização.

O Conselho vem continuamente defendendo os princípios da Reforma Psiquiátrica no âmbito do Sistema Único de Saúde. Com esta mesma orientação, participou do grupo que elaborou novas diretrizes para atenção à saúde mental na ANS, já publicadas, e questionou a antiga Resolução do Conselho de Saúde Suplementar (Consu n° 11/98), substituída pelo novo Rol.

2) Ampliação de consultas ambulatoriais de Psicologia e outras em saúde mental, que representam o avanço para o atendimento em saúde mental e atuação do psicólogo na saúde suplementar.

A única cobertura relacionada ao atendimento ambulatorial em saúde mental prevista na resolução anterior, a 167, era de 12 sessões de psicoterapia, não existindo nenhum procedimento específico previsto para o trabalho do psicólogo.

A nova resolução (211) traz, portanto, enorme conquista: 40 sessões com psicólogo para alguns CIDs e 12 sessões de psicoterapia, também para alguns CIDs. Cresceu a quantidade possível para atendimento, mas houve também uma nova restrição de CIDs.

O cenário que o CFP buscou construir ao longo de sua atuação com a ANS era a cobertura sem limites para consultas, sem haver também restrição de CIDs, o que ainda não foi alcançado, mas continua sendo a meta para a categoria.

Mais um ponto positivo do novo texto é explicitar a condição ilimitada da cobertura hospitalar. Com isso, as intervenções de outros profissionais indicadas pelo médico assistente não têm mais limitação alguma - nem pelo número de sessões, nem em relação aos CIDs. Dessa forma, um paciente internado para transplante renal, por exemplo, cujo médico assistente solicite atendimento psicológico, deve receber as sessões que forem necessárias, independentemente de seu diagnóstico psicológico.

Atuação continua

O Conselho Federal de Psicologia, ao mesmo tempo em que reconhece e comemora os avanços, continua atuando fortemente na perspectiva da atenção integral e multiprofissional em saúde e, por isso, continua construindo subsídios e diretrizes, questionando, sobretudo, a limitação de sessões e subordinação do trabalho dos profissionais da psicologia ao médico assistente.

No mesmo sentido, o CFP continuará atuando no questionamento à necessidade de co-participação para internações, isto é, existência de cobrança aos pacientes a partir de um determinado número de dias de internação.

Houve acordos construídos durante todo o processo de debate sobre o novo Rol que foram deixados de lado após a consulta pública, na qual a pressão dos planos de saúde sobre a ANS foi visível.

Após a divulgação da Resolução Normativa número 211, pela ANS, o Conselho continuou atuando para garantir todos os avanços importantes para a profissão. Ele participa de ação conduzida pelo Ministério Público de Caxias do Sul (RS) que, em conjunto com outras Promotorias de Defesa da Saúde Pública, questionam, do ponto de vista legal, itens como a necessidade de solicitação de médico para o atendimento com psicólogos e para psicoterapia. Tal exigência, na avaliação do CFP, revela ilegítima e inconstitucional hierarquização da atuação dos profissionais da saúde, e vem sendo questionado justamente por ferir a autonomia das profissões.

Além disso, Conselho Federal de Psicologia participou das sete reuniões para discussão do novo rol de procedimentos e eventos em saúde, no primeiro semestre de 2009, opinou na consulta pública e esteve presente na reunião pós-consulta.

Uma pesquisa também foi realizada sobre os marcos legais da saúde mental na saúde suplementar, e publicada no documento “A regulação estatal sobre saúde mental no Brasil e suas implicações sobre os serviços de psicologia e psicoterapia na Saúde Suplementar”. A finalidade do documento é servir de subsídio técnico e jurídico para as ações do CFP junto às instâncias do governo e controle social para defender uma saúde suplementar que abranja todos os níveis de atenção à saúde, de forma integral e não limitada.



Artigo - Obesidade Mórbida

"Ética é sempre dar o credito aos autores dos textos'


Obesidade Mórbida e Intervenção

    Autora: Rosângela T. Cristani Arruda - Psicóloga - CRP 08-2170
    Data: 31/07/2003


    A obesidade mórbida merece atenção especial porque estudos epidemiológicos têm    evidenciado esta como uma das síndromes que tem aumentado acentuadamente no mundo e no Brasil nas últimas décadas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) “a obesidade mórbida é uma das doenças que mais matam no mundo". Na América Latina é provável que 200 mil pessoas morram anualmente em decorrência das comorbidades relacionadas com a obesidade” (Coutinho, Benchimo, apud Garrido, 2003).

    Obesidade é uma doença universal de prevalência crescente e vem adquirindo proporções alarmantemente epidêmicas, sendo um dos principais problemas de saúde pública da sociedade moderna”.(Walder, Ravussin, 1998).

    A concepção da causa da obesidade tem mudado nos últimos 40 anos. Várias teorias procuram esclarecer seu ponto de vista com relação a esse problema, porém hoje sabe-se que a obesidade não é uma entidade solitária que pode ser explicada por uma única causa, seja de aprendizagem, seja genética, de regulação neural, metabólica, endocrinológica, psicológica ou social. “A obesidade é uma desordem heterogenia com etiologia múltipla, por isso, com múltiplos fatores de risco” (Brownel & Wadden, apud Arruda 1996).

    A obesidade acarreta um risco aumentado de inúmeras doenças crônicas, como: “diabete milito, dislipidemia, doenças cardio e cerebrovascular, alterações da coagulação, doenças articulares degenerativas, neoplasia de vesícula biliar, esteatose hepática com ou sem cirrose, apneia do sono, câncer”, (Mancini, Coutinho, Benchimol, apud Garrido 2003). “Pacientes obesos e com obesidade grave, também chamada de obesidade mórbida, tem este risco magnificado, com aumento expressivo da mortalidade – 250% em relação aos pacientes não obesos”. (Bray, 1991). Sendo que os fatores psicológicos são considerados participantes em maior ou menor grau, neste mecanismo.

    “É justamente o avanço do conhecimento médico sobre o aumento da morbimortalidade que enfatiza a necessidade de intervenção médica no tratamento da obesidade” (Mancini, apud Garrido, 2003).

     “No Brasil, a prevalência da obesidade aumentou muito na última década, em especial para os adultos do sexo feminino, chegando a 13,3%; a taxa de ascensão da obesidade no Brasil é de 0,36 pontos percentuais ao ano para a população feminina e de 0,20 pontos percentuais ao ano para a população masculina” (Malheiros, apud Garrido, 2003).

    Em 1991, 61% dos americanos adultos e 13% das crianças e adolescentes têm excesso de peso. Destes, 20% a 30% dos homens são obesos e 30% a 40% das mulheres são obesas. Os dados americanos trazem uma grande preocupação, mostram que a cada ano 300.000 mortes ocorrem em consequência do excesso de peso. Os indivíduos com excesso de peso têm um risco aumentado de morte prematura de 50% a 100% em relação aos indivíduos de peso normal ou esperado para sua altura.


    Obesidade Mórbida

    Pode-se estabelecer basicamente dois tipos de diagnósticos frente a um paciente obeso: “um diagnóstico quantitativo, que se refere à massa corpórea ou à massa de tecido adiposo, e um diagnóstico qualitativo que se refere à distribuição de gordura corporal ou à presença de adiposidade visceral” (Bray, 1998).

    Diagnóstico Quantitativo é feito através do “calculo do índice de massa corpórea (IMC ou BMI, de body mass index) também conhecido por Índeice de Quetelet, que é o peso (em Kg) dividido pelo quadrado da altura (em m) é ainda o mais utilizado (tabela 1.1)” (Bray, 1998).

    Tabela 1.1.
Classificação da Obesidade Segundo o Índice de Massa Corpórea (IMC) e Risco de Doença - OMS -
(Organização Mundial da Saúde).

IMC (kg/m²)       Classificação Obesidade Grau      Risco de Doença
                                18,5 Magreza                                    0 Elevado
                                18,5 – 24,9 Normal                         0 Normal
                                25 – 29,9 Sobrepeso                       I Elevado
                                30 – 39,9 Obesidade                      II Muito Elevado
                                ≥ 40,0 Obesidade Grave                III Muitíssimo Elevado

    No diagnóstico Qualitativo, o uso do IMC ignora a distribuição de gordura corpórea, e pode ser feita da seguinte forma:

    (...) o excesso de gordura pode estar mais concentrado na região abdominal ou no tronco, o que define obesidade tipo androide, superior (de upper), central, abdominal, ou em maçã (apple), mas frequentes mas não exclusiva no sexo masculino, ou pode estar mais concentrada na região dos quadris, o que define a obesidade tipo ginóide, inferior, periférica ou subcutânea, glúteo lemural, ou em pera, mas frequente mas não exclusiva do sexo feminino. A obesidade androide apresenta maior correlação com complicações cardiovasculares e metabólicas que a ginóide, que apresenta como doenças complicações vasculares periféricas e problemas ortopédicos e estéticos.

    (...) Mais recentemente, a medida isolada da circunferência da cintura tem mostrado ser suficiente para estabelecer risco, sendo considerados os limites normais de circunferência <95 cm para homens e <80 cm para mulheres. O risco de existir pelo menos um fator clássico de risco coronariano aumenta substancialmente quando a medida em homens ultrapassa 104 cm (odds ratio: 4,6) e em mulheres ultrapassa 88 cm (odds ratio: 2,6).(Bray, p.1-2, 1998).

    Halpern (apud Garrido 2003), no seu trabalho sobre a fisiopatologia da obesidade define: “a obesidade é definida como um excesso de tecido adiposo; tal excesso dá-se, segundo conceito generalizado, por uma ingestão calórica que sobre passa o gasto calórico”. Identificando desta forma a obesidade como um desequilíbrio no gasto energético, acumulando gordura no corpo. Há uma série de mecanismos neurológicos, metabólicos e hormonais que mantém o equilíbrio entre a ingesta e o gasto energético. Quando estes mecanismos de controle se desregulam tendem a levar a um excesso de ingesta em relação ao gasto energético corpóreo, e ocorre o armazenamento da sobra de energia sob a forma de gordura, em consequência o aumento do peso corpóreo. Quando este acúmulo atinge grandes proporções, passa a ser chamado de obesidade mórbida.


Abordagem Terapêutica

    A abordagem terapêutica requer uma equipe multidisciplinar com visão interdisciplinar para esta patologia e necessita que a psicologia venha dar sua contribuição científica neste tratamento. “Estudos realizados mostram a importância da avaliação e do trabalho psicológico pré-operatório no prognóstico e na aderência do paciente ao tratamento pós-operatório” (Franques, 2003).

     Existem várias alternativas terapêuticas que, combinadas, conseguem significativas perdas de peso como: as dietas de baixas calorias, psicoterapia, a terapia comportamental, o exercício físico e algumas drogas como a sibutramina e o orlistat, que incrementam o artesanal terapêutico da obesidade. Porém, quando se trata da obesidade mórbida, essas medidas, na maioria das vezes, são ineficientes pelo quadro de comorbidade que estes clientes severamente obesos apresentam, não conseguindo fazer sua manutenção de peso (efeito-sanfona), gerando constante risco clínico, redução da qualidade de vida e alterações cognitivas e comportamentais que requerem abordagens eficientes e eficazes na redução do peso.

    O tratamento cirúrgico vem se apresentando como um método cientifico que promove acentuada perda de peso e com alta incidência na sua manutenção, reduzindo taxas de mortalidade, resolvendo e às vezes minimizando uma série de doenças associadas à obesidade mórbida.

    A abordagem terapêutica do paciente obeso deve envolver sempre um plano de reeducação alimentar, atividade física e uso de agentes anti obesidade. Nos pacientes com obesidade mórbida a abordagem clínica geralmente é ineficaz e a cirurgia bariátrica (nome para a cirurgia da obesidade mórbida - baros em grego= peso) se impõe como uma importante opção de tratamento (Coutinho, Benchimol, apud Garrido, 2003).


Tratamento Cirúrgico

    “Segundo Cabral (p. 35, apud Garrido, 2003) “... o tratamento clínico da obesidade mórbida, na maioria das vezes, é frustrante, sendo a cirurgia bariátrica, atualmente, considerada a mais bem sucedida medida terapêutica, neste caso”.

    No que se refere a manutenção de peso pelo obeso mórbido, há muitos pacientes que conseguiram emagrecer e até chegar ao seu peso saúde, após internação prolongada em spa, tratamento endocrinológico, psiquiátrico (a psicofarmacoterapia tem apresentado avanços significativos no controle das compulsões), em psicoterapia, com atividade física, porém os dados da literatura são desanimadores: “apenas 20% dos pacientes que emagreceram conseguem manter a perda de peso durante um ano e depois de cinco anos, apenas 5% dos pacientes conseguem manter seu peso dentro dos limites aceitáveis (Coutinho, Benchimol, apud Garrido2003).

    “Em se tratando de pacientes obesos mórbidos podemos afirmar que a imensa maioria dos que chegam à cirurgia bariátrica traz alterações emocionais. ... A cirurgia bariátrica entra na vida do paciente obeso mórbido, provocando não só o emagrecimento (trazendo inúmeras modificações para todos os aspectos da sua vida) como o impedimento de sua forma habitual de aliviar tensões internas. (Franques, p. 75, apud Garrido, 2003).

    Existem várias técnicas cirúrgicas que são utilizadas pelos médicos e discutidas entre a equipe multidisciplinar e depois com o cliente com o objetivo de adequação ao tratamento do paciente. Técnicas Utilizadas (Buckwald, 1984; Halberg, 1979).

 Técnicas:

- Banda Gástrica Ajustável no Estômago
- Gastroplastia Vertical com Bandagem (Técnica de Mason)
- Gastroplastia Vertical com Bypass Gastrojejunal (Técnica de Capella)
- Bandagem Gástrica Laparoscópica (Lap-Band).
- Derivação Biliopancreática (Técnica de Scopinaro)

    “Ao se discutir a respeito do melhor tratamento atual para a obesidade mórbida, a conclusão que provavelmente será unânime é que a cirurgia bariátrica constitui o tratamento mais eficaz desta doença por varias razões. Estudos demonstram que os métodos voluntários de perda de peso são ineficazes no manuseio da obesidade mórbida (ou grave). ...Nenhum estudo a longo prazo, até o momento que a reeducação alimentar, a atividade física regular, a terapia comportamental e/ou uso de medicamentos anti obesidade contribuem para a redução significativa da morbimortalidades do grande obeso e a melhora substancial da qualidade de vida” (Cabral, p.42, 2003).

A Equipe para o atendimento do obeso mórbido:

    A equipe que trabalhará com o obeso mórbido (ou cliente bariátrico) dependerá de suas comorbidades. Geralmente a equipe é formada pelo clínico e/ou cirurgiões, cardiologista, pneumologista, psicólogo, nutricionista, fisioterapeuta, psiquiatra e a equipe do pré-cirúrgico imediato: anestesiologista, instrumentadores e enfermagem.

    Segundo Cordas,
”Lastimavelmente o profissional de saúde mental, provavelmente mais o psiquiatra, mas também o psicólogo, teve uma chegada algo tardia ao campo da Obesidade ou “Obesidades”, como preferem alguns. ... Não há à luz das evidências atuais razões para imaginar que a obesidade seja resultado direto de distúrbios psicológicos; se ultrapassarmos esta barreira onde apenas os desavisados sucumbem veremos que as consequências psicológicas da obesidade estão relacionados com o estigma e o preconceito”(p. 71 apud Garrido, 2003).

    O papel do psicólogo dentro da equipe para a cirurgia bariátrica é de avaliar se o cliente está apto emocionalmente para a cirurgia isto é, se apresenta estrutura psicológica com recursos emocionais internos e externos de forma técnica cientifica, auxilia-lo quanto a compreensão destes aspectos e de todos os aspectos decorrentes do pré-cirúrgico, pré-cirúrgico imediato e pós-cirúrgico. Encaminhar, analisar e discutir com a equipe os critérios necessários para a indicação da gastroplastia para cada cliente.

    “Durante a fase pré-operatória normalmente o paciente é encaminhado ao psicólogo através do clínico ou do cirurgião para a avaliação psicológica, com o objetivo de detectar e tratar os pacientes portadores ou potencialmente sujeitos a distúrbios psicológicos graves. Aqueles que apresentam distúrbios psiquiátricos serão encaminhados para o psiquiatra. ... Psicóticos, deprimidos, os usuários de drogas, com transtornos alimentares ... os que apresentam história de tratamento psiquiátrico prévio ou que estejam fazendo uso de psicofármacos. (Franques, p.76-77, apud Garrido 2003).

 Olhar o cliente através de uma lente sistêmica e dinâmica, auxiliando-o nas mudanças e exigências decorrentes antes e depois da cirurgia; expectativas pessoais e sociais irracionais e racionais; ajuda-lo a diminuir ou eliminar alguns comportamentos inadequados e ajuda-lo a aumentar seu repertório de comportamentos adequados frente as contingências desencadeadoras.

    Os critérios para a indicação da cirurgia bariátrica como tratamento são referendados pelo Conselho Regional de Medicina Resolução N˚1.766/05, a Federação Internacional para a Cirurgia da Obesidade (IFSO) e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica (SBCB), onde adotam os seguintes parâmetros:

Boletim de Cirurgia da Obesidade. 1(2):6 2000 e Cordero, 1998.
• O cliente tem que ter obesidade mórbida, ou seja, ter um IMC acima de 40Kg/m², ou IMC entre 35 a 40Kg/m² desde que haja alguma comorbidade.
• Insucesso de tratamento clínico por 3 anos.
• Risco cirúrgico aceitável: ausência de patologias que aumentem o risco cirúrgico como enfisema pulmonar, nefropatia, cirrose.
• Ausência de doenças debilitantes (AIDS, câncer).
• Comportamento com ajuste social: ausência de comportamento aditivo (alcoolismo e drogas) e psicopatias não controladas.
• Capacidade cognitiva para poder compreender todas as implicações da cirurgia como os riscos e o procedimento cirúrgico.
• Idade não superior a 60 anos.


Programa para o obeso mórbido considerado bem sucedido.

    “O paciente mais bem preparado do ponto de vista técnico, nutricional e psicológico tem um pós-operatório mais tranquilo. Desta forma, estabelecer um vínculo de confiança entre médico e paciente é de extrema importância, com a equipe multidisciplinar atuando como intermediadora do conhecimento médico leigo em toda sua essência”. (...) a cirurgia funciona como um instrumento. O cirurgião e toda sua equipe devem ensinar ao paciente como usa-lo adequadamente para obter melhores resultados pós-operatórios, tanto no aspecto físico como emocional”. (Rasera Jr, Shiraga, p.47, apud Garrido 2003).

    Todo programa para ser bem sucedido depende de algumas variáveis, na gastroplastia observa-se que a formação da equipe multidisciplinar, e do protocolo de atendimento, são fatores importantes. Na formação do protocolo deve-se levar em consideração os aspectos éticos e científicos de todas as áreas envolvidas; a avaliação sistemática deste protocolo, juntamente com as características comportamentais de toda a equipe; interesse pelo estudo e desenvolvimento de pesquisas, farão uma grande diferença entre as equipes que se propõe a atender o obeso mórbido.

    Observa-se na literatura e na experiência clínica que o sucesso deste tratamento não se baseia só na cirurgia, como também no fato do paciente não abandonar o programa pós-operatório de atendimento multidisciplinar, e aqui se salienta novamente a importância do atendimento psicológico. A diminuição imediata do peso desenvolve mecanismos biológicos aumentando seu comportamento de euforia com a idealizada sensação de eliminação das contingências que o levavam a comer em excesso. Passado esta fase, tendem a se deparar com as contingências mantenedoras do peso anterior, que não são eliminadas pelo cirurgião. Cabe ao psicólogo através do diagnostico emocional e comportamental, compreensão dos antecedentes e consequentes, auxiliar o obeso no desenvolvimento de repertórios de enfrentamento destas contingências para que este não venha desenvolver novos comportamentos inadequados para lidar com os seus conflitos psicológicos.

    Programas bem sucedidos: (IFSO, 1997)
• Cirurgião habilitado, com conhecimento em cirurgia da obesidade e dedicado ao programa.
• Equipe multidisciplinar com abordagem interdisciplinar.
• Dedicação e atendimento da equipe multidisciplinar quanto ao funcionamento do(s) procedimento(s) e suas implicações em suas respectivas áreas.
• Conhecimento sobre todos os aspectos relevantes da obesidade mórbida.
• Conhecimento de todo o processo da gastroplastia por parte da equipe e não somente pelo cirurgião.
• Responsabilidade de todos quanto a participar do desenvolvimento e eficácia do protocolo.


O Nosso Protocolo: 

Protocolo seguido pelo Instituto do Comportamento – Curitiba – Pr.

Etapas e Ações:

Pré-operatório
• avaliação psicológica ou psicodinâmica.
• orientações gerais ao cliente.
• contato com a família.
• devolutiva e orientações.
• encaminhamentos.
• reunião multidisciplinar.
• laudos para os convênios.

Pré-operatório imediato.
• atendimento hospitalar.
• acompanhamento cirúrgico.
• orientação familiar.
• orientação à enfermagem.

Pós- operatório
• acompanhamento hospitalar.
• acompanhamento psicológico em grupos ou individual.
• orientação familiar

    O objetivo do pré-operatório pela psicologia é avaliar se o cliente está dentro dos critérios para a indicação cirúrgica; orienta-lo sobre a cirurgia que vai ser submetido; riscos e complicações; benefícios esperados; exames e seguimentos requeridos a longo prazo; consequências emocionais, sociais e físicas a longo prazo; responsabilidades esperadas dos pacientes. Encaminhamento quando se faz necessário, como por exemplo ao psiquiatra. Reuniões com a equipe para a discussão do caso e dos procedimentos a serem seguidos pela equipe para o sucesso do tratamento do cliente.(Mason,1994).

    Orientação e acompanhamento familiar é muito importante, pois desta forma podemos conhecer as contingências mantenedoras do comportamento do cliente, como no relato do caso que se segue. (Marchesini, p. 32 apud Garrido 2003) :

    “Mãe de um casal de filhos, a menina com sobrepeso e o garoto com IMC normal, insistia em ter doces e salgadinhos em casa porque o rapaz não podia ser sacrificado. A gorda é que deveria controlar-se - sic. Ela própria obesa mórbida, compulsiva, seguia comprando porcarias. Questionamos, então, se faria sentido manter um bar e comprar vinhos da melhor qualidade, se houvesse um dos filhos com alcoolismo. O controle alimentar ainda é visto com preconceito pelo próprio obeso, pela equipe de saúde, pelos educadores e também por psicoterapeutas. Esta questão prejudica a comunicação interpessoal e faz com que somente os próprios operados e seus estômagos e intestinos, e seus vasos sanitários, saibam da verdadeira ingestão alimentar que fazem”

    A informação comunitária através dos profissionais de saúde é por demais importante até para analisar medidas que são adotadas pelas autoridades. A revista Veja de 1o de maio de 2002 publicou uma reportagem sobre a saúde sob o título “Seu filho está gordo”, na qual em um quadro nomeado “Lição de casa: Emagrecer”, conta que no ano de 2000, em Cingapura, o governo determinou que quem não emagrecesse seria reprovado na escola, não importando quais as notas tiradas em provas escolares. A lei teria sido suspensa em função de um caso de suicídio de um garoto que, ao prever que não emagreceria, teria optado por esta solução trágica.

    “O seguimento pós-operatório destes pacientes também é fundamental para se atingir os resultados tão almejado pela cirurgia” ( Rasera Jr., Shiraga, apud Garrido, 2003.

    O atendimento do cliente após a cirurgia, pela psicologia, tende a facilitar seu ajuste físico , emocional, social e familiar, alem de esclarecer dúvidas e temores dos pacientes, promovendo informações e ajuda prática, incentivando a procura da equipe médica e multiprofissional, sempre que necessário. (Buchwald, 1980).


 Resultados

    O tratamento cirúrgico da obesidade mórbida tem sido indicado e realizado há vários decênios como opção terapêutica neste tipo de condições. A tentativa de uniformização dos dados começou á partir de 1997 com a introdução do BAROS (Bariatric Analysis and reporting Outcome System), idealizado e confeccionado após consulta, através de questionário, aos principais cirurgiões bariátricos. (Oria, 1996). Este método analisa os resultados da cirurgia bariátrica através de alguns critérios objetivos (perda do excesso de peso e melhora das comorbidadez), que são investigadas pelos médicos, e de critérios subjetivos, informados pelos pacientes (melhora na auto-estima, atividade física, relações sociais, disposição para o trabalho e atividade sexual) este critérios subjetivos relacionam-se com a qualidade de vida. Existem vários tipos de questionários que permitem avaliar a qualidade de vida na obesidade mórbida. Entretanto, por serem muitos extensos e pouco específicos, ou em estudo, são pouco utilizados. (Wadden, 2001). Através das pesquisas feitas observa-se que através da gastroplastia o obeso tem uma melhora significativa em todas as suas áreas de vida seja física, emocional, social ou sexual. (Oria, Moorehead, 1998).


Psicologia

É muito importante a participação da psicologia no tratamento, na avaliação, no acompanhamento e no aconselhamento destes clientes, família e da comunidade.

Estudos clínicos realizados, mostram que deixar de ser obeso implicará mudanças na maneira de agir e na vida como um todo e ao reorganizar-se e estruturar-se novamente, frequentemente o ex-obeso necessita de ajuda.(Loli, 2000).

Ninguém emagrece efetivamente, sem reorganizar a vida e preparar-se para este evento. (Martins, 1994). Já se constatou que os grandes obesos apresentam alta prevalência de conflitos psicológicos e se modificam com a redução do peso, porém necessitam de adequada avaliação psicológica e tratamento pré-cirúrgico no sentido de evitar complicações futuras. “O trabalho do psicólogo pode auxiliar o paciente a conhecer, a compreender melhor a si mesmo, a aderir de forma mais eficiente ao tratamento, envolvendo-se e tornando-se responsável pela vivência da criação de uma nova identidade e pela sua participação efetiva no processo de emagrecimento. ...O ato cirúrgico é apenas o começo”. (Franques, p.79 apud Garrido, 2003).

A psicologia como ciência tem uma função muito importante junto a estes clientes, uma função de ajuda, de ética, de humanização de pesquisa e compreensão, para que no protocolo destes pacientes haja uma visão bio-psico-social.

O que se espera:
• desenvolvimento de trabalhos preventivos para a obesidade;
• desenvolvimento de pesquisas sobre o tema;
• demonstrar a importância da psicologia dentro da equipe multidisciplinar;
• trabalhar junto aos psicólogos a Humanização e a Ética Profissional.


Bibliografia:

Arruda, Rosângela T. Cristani. Programa e Emagrecimento: percepção das vantagens e desvantagens que afetam o comportamento da mulher obesa em diferentes áreas de sua vida. Monografia - UFPR, 1996.

Boletim de Cirurgia da Obesidade. 1(2):6,2000.

Bray GA. Contemporary Diagnosis and Management of Obesity. Handbooks in Health Care Co. Newtown, Pennsylvania, USA, 1998.

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Buckwald , Rucker RDJ. A history of morbid obesity. Advances in gastrointestinal surgery. JS Najarian. Delaney. JP Chicago: Year Book Medical Publishers: 235,1984.

Buchwald H. True Informed Consent in Surgical Treatment of Morbid Obesiy: The current case for both Jejunoileal and Gastric Bypass. Am J Clin Nutr 33:482- 494.1980.

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Garrido JR. A.B., EM Ferraz, FL Barroso, JB Marchesini, T Szegö. Cirurgia da Obesidade. S.P, Atheneu, 2003.

Garrido JR. A.B.,G. Rodrigues. Tratamento Cirúrgico da Obesidade Mórbida. In: Pinotti, HW, ed. Tratado de Clínica Cirúrgica do Aparelho Digestivo. V1. S.P., Atheneu, 1994. p.132-7.

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Texto - Intimidade Emocional







Intimidade Emocional


O que mais necessitamos atualmente é de intimidade emocional. A intimidade física é hoje muito fácil, porém não cria vínculos nem sustenta relações amorosas estáveis. Confundimos amor com sexualidade e intimidade emocional com intimidade física. “Fazemos amor” como se amor e sexo fossem a mesma coisa. A sexualidade e a intimidade física são estímulos fortes e importantes para a vida, mas não geram vínculos nem mantêm a relação estável, necessária para os cuidados e a proteção da vida. A sexualidade e a intimidade física atraem as pessoas, porém, como estímulos vitais têm vida curta. Em pouco tempo “conhecemos” a outra pessoa, seu corpo, suas reações físicas, seus desejos e prazeres. Deixa de existir algo novo e excitante e a relação começa a ser monótona e não estimulante. A intimidade física, sem a intimidade emocional, não sustenta a relação por longo tempo.

Para compreender melhor a diferença entre a intimidade física e a emocional, vamos fazer uma distinção entre interação e relação.

A interação é o que ocorre num nível superficial, quando nos relacionamos a partir dos papéis que desempenhamos, como, por exemplo o médico, o professor, o freguês, o ilustre desconhecido da rua, etc. A interação obedece a regras específicas dos papéis desempenhados; em geral é mais superficial e dirigida mentalmente. Olhamos para a outra pessoa, percebemos o papel que desempenha, avaliamos, julgamos, criticamos, damos opinião ou conselhos, etc. A interação é útil e necessária para a convivência social. Não somos íntimos de todas as pessoas nem estamos voltados para a intimidade com o guarda da esquina, o frentista do posto de gasolina ou o caixa do supermercado. Entretanto, mantemos com essas pessoas uma interação cordial e socialmente aceitável. Normalmente a interação se dá no nível verbal e com um mínimo de toques ou de olhares mais diretos. Mantemos inclusive uma “distância” física convencional. Quando num elevador as pessoas são obrigadas a manter uma distância menor que a convencional, é evidente o incômodo geral e a busca de alguma interação verbal para disfarçar o constrangimento.

A relação começa geralmente pelo nível energético. Basta um olhar, um toque sutil ou uma palavra “casual” para que algo aconteça entre duas pessoas. Nestes simples atos elas expõem anseios que vêm de sua Essência. Geralmente acompanha-se de um misto de curiosidade e vergonha frente à exposição. É algo que acontece independente da vontade consciente de ambos. Começam a se expor emocionalmente! Se as pessoas não se assustarem e fugirem, a aproximação será progressiva, levando a uma exposição profunda das almas envolvidas. É a intimidade emocional estabelecendo-se. Ela ocorre quando a Alma da outra pessoa é vista, ouvida, recebida, nos toca em nossos sentimentos e emoções e temos uma resposta emocional para ela. A intimidade emocional existe quando existe uma verdadeira relação, isto é, quando existe um Eu que se expressa e tem no outro um Tu que o recebe, se deixa tocar e tem uma resposta emocional para dar. Estamos além dos papéis que desempenhamos! Passamos horas conversando, falando de nós mesmos e ouvindo deslumbrados os relatos da outra pessoa. A necessidade de intimidade física parece não existir num primeiro momento e pode mesmo não existir, quando a intimidade emocional leva as pessoas a estabelecerem uma profunda amizade. Ficamos excitados vitalmente, voltamos a sonhar, sentimo-nos reconhecidos em nosso Eu! Se a relação caminha para além de uma amizade profunda, a necessidade de intimidade física torna-se progressivamente mais forte, ativando desejos de contato físico. Estamos apaixonados! Na Psiquiatria do início do século XX falava-se da paixão como um estado alterado, um estado patológico! Na realidade a paixão é a expressão de um profundo anseio humano! O anseio de sentir-se recebido, reconhecido e reafirmado na expressão genuína de seu Eu.

Antes da liberação sexual existiam duas situações definidas: a relação sexual amorosa e a interação sexual profissional. A antiga “prostituta” era uma pessoa que desempenhava um papel, a partir do qual tinha um comportamento esperado e pelo qual era retribuída financeiramente. Ela não beijava seu freguês; o beijo era uma intimidade emocional reservada ao seu amado! Atualmente temos, de forma análoga a garota e o garoto de programa. Desempenham papéis.

Atualmente criamos mais uma categoria, a da interação sexual não profissional. Inventamos o “ficar”, situação na qual as pessoas podem ter intimidade física sem intimidade emocional. O papel da mulher liberada sexualmente e do homem descompromissado ajustam-se perfeitamente! Muitas vezes, a partir dessa intimidade física surge a intimidade emocional e a relação amorosa se estabelece. Mesmo na situação do garoto e da garota de programa, quando a interação prolonga-se, pode estabelecer-se a intimidade emocional e a relação tornar-se amorosa, levando à formação do casal e da família. A busca da interação sexual profissional, geralmente indica dificuldades de estabelecer relações amorosas, mas a natureza e a alma, às vezes pregam peças até nos mais evasivos!

A liberdade sexual e a facilidade de intimidade física nos trouxeram prazeres e variedade de experiências, mas nos tirou a possibilidade de sonhar e de sentir aquela intensa excitação vital do começo da paixão! Não temos tempo para esperar acontecer. A interação sexual banalizou a sexualidade!

Independente de como chegamos à paixão, para que esta tenha continuidade com a relação amorosa duradoura, dependerá da disponibilidade de ambos em preservar a intimidade física e emocional. Já disse acima que a intimidade física sozinha, não preserva a relação nem traz os cuidados e a proteção para a vida! O amor cria vínculos duradouros e intimidade emocional e nesta temos uma fonte inesgotável de estímulos novos. Durante toda a nossa existência não chegaremos a nos conhecer integralmente e muito menos a conhecer totalmente a outra pessoa. Quando o casal mantém a intimidade física e emocional, a relação será fonte inesgotável de estímulos para a vida, para o auto-conhecimento e para o conhecimento da outra pessoa. Preservar a intimidade emocional é uma questão de sobrevivência da própria relação amorosa!

Descrevemos até aqui as condições necessárias para a interação e a relação saudáveis. Existem, entretanto muitas inadequações que frustram a ambas. Normalmente estão ligadas à questão dos limites pessoais.

A interação aceitável socialmente pede que cada participante se mantenha dentro de seu papel específico e que obedeça as regras do mesmo. Se uma pessoa rompe a distância convencional, se olha de forma muito intensa, toca fisicamente de forma íntima ou se expressa emocionalmente, não importando se a emoção é amorosa ou agressiva, estará ultrapassando as regras da interação. Esta atitude a torna invasiva para a outra pessoa e a interação se rompe ou torna-se difícil. Amparadas na liberdade sexual ou na crença de que expressar emoções é sempre saudável, muitas pessoas expõem-se emocionalmente com facilidade e sem limites. São invasivas e inadequadas socialmente. Outras pessoas apresentam limites tão estreitos e preconceituosos que impedem a mínima cordialidade social. São fechadas como caramujos em suas conchas, impedidas de se relacionarem e até de interagirem socialmente.

A relação pede por intimidade emocional. Quando um olhar, um toque, uma palavra nos move internamente, foi despertada a intimidade emocional. Pode acontecer que esta situação nos assuste e então fugimos do contato ou respondemos racionalmente expressando uma opinião, um conselho ou mesmo uma interpretação. Evitamos nossa resposta emocional. Pode ser também que não estamos disponíveis para a intimidade com a pessoa em questão. Não existe um Tu respondendo ao Eu que se expressa. Normalmente a ausência de resposta emocional é o indicativo para a outra pessoa, de que deve manter-se no nível da interação. Se ela insiste na direção da relação, é bem provável tratar-se de pessoa invasiva e sem limites. Pode ser também que tenhamos limites tão estreitos que impossibilitam a relação!

Iniciamos dizendo que o que mais necessitamos atualmente é de intimidade emocional. Sem intimidade emocional sentimo-nos solitários e a vida torna-se árida. Freqüentamos festas, bares, happy hours e atualmente a Internet na busca de relações significativas. Passamos longo tempo aprendendo a interagir socialmente, mas não temos uma escola onde possamos aprender a nos relacionar. A aprendizagem da intimidade emocional começa dentro da família e nossos pais sofreram dos mesmos males ou talvez de males piores que os nossos. Nossas dificuldades frente à intimidade emocional frustram o anseio maior que é de expressar nosso Eu, ser recebido, reconhecido e reafirmado em nossa expressão. O resultado é a solidão ou as interações pouco significativas.

Evidentemente não existem regras do tipo “faça você mesmo” a ensinar. Existem algumas orientações que podem nos ajudar nesta empreitada, como as que apresento abaixo.

Aprendendo a intimidade emocional

A intimidade emocional ocorre internamente quando estamos em contato com nosso Eu, nossa Essência. Neste momento desfazem-se os conflitos internos e nos sentimos inteiros. A partir desse lugar interior, podemos sair da interação e entrar na relação. Estamos prontos para a intimidade emocional externamente. É o momento onde o Eu e o Tu existem e se reafirmam. O Eu pode ser sustentado externamente, quando existe um Tu que o recebe e o reafirma e o Tu pode emergir quando existe um Eu que se expressa e se comunica. Quando isto ocorre existe a verdadeira relação! Fora deste momento, somos papéis que interagem com outros papéis. Não existem pessoas. Tornamo-nos conceitos indiferenciados, genéricos, “coisificados” e “coisificando” o próprio mundo. E este perde seu encantamento! Ler: EU-TU de Martin Buber.


Orientações para a intimidade emocional

1- Fale de si próprio, deste seu momento e não do outro ou de sua história.

2- Retome constantemente suas sensações corporais, sentimentos e emoções.

3- Expresse o que sente através de suspiros, choro, emoção, anseios de tocar, apoiar o outro ou pedir apoio e ajuda.

4- Nomeie o que sente e reflita sobre o que sente, reflita sobre seu próprio Eu.

5- Comunique ao outro as reflexões que faz sobre si mesmo. Afirme seu Eu!

6- Ouça atentamente o que o outro fala dele mesmo. Olhe-o diretamente. Afirme e receba o Tu que se comunica!

7- Tome consciência de sua resposta interna (sensação, sentimento, emoção) ao receber a comunicação da outra pessoa.

8- Expresse e comunique suas sensações, sentimentos e emoções em relação à comunicação do outro. Não fale dele, não o julgue, não o analise, não o avalie; comunique apenas o que você sente internamente! Ex: Eu me sensibilizo com sua dor, sua situação move também a minha dor. Etc.

9- Só dê sua opinião quando o outro solicitar alguma avaliação ou conselho, porém comece sempre expondo como você se sente no momento. Ex: Eu me sinto sensibilizado com sua pessoa e como você está me permitindo, gostaria de dizer-lhe que.............

10- Clareie para você mesmo o que você percebe, o que você sente e o que você pensa sobre o outro. Você pode percebê-lo cabisbaixo, triste, sentir-se preocupado com ele, e talvez esteja muito interessado em saber o que se passa. Não interprete o estado dele.

Seja franco e direto: Eu o percebo cabisbaixo, estou preocupado com seu estado e gostaria de saber o que se passa com você, se você se sentir à vontade para expor!

É importante aceitá-lo não disponível para se expor!

11- Desfrute de seus momentos de intimidade emocional, não importando onde você esteja: num bar, numa roda de amigos, numa relação amorosa, num momento de sua espiritualidade, etc.

                                     

Dimas Calegari, Janeiro/2003

21 de mai. de 2014

Texto - Armadilhas da Obesidade - 2007







Armadilhas da Obesidade

Mecanismos cerebrais que regulam o prazer da alimentação, a fome e a sensação da saciedade são muito semelhantes aos que influem na dependência de drogas como álcool e cocaína.
  
Muita gente acredita que informação e força de vontade são suficientes para se livrar dos quilos a mais. Falar é fácil. Difícil é vencer as tentações, todos dias e em toda parte. Embora estejamos cansados de saber dos malefícios do excesso de gordura e de açúcar e dos riscos da obesidade, para um número cada vez maior de pessoas é impossível resistir e controlar os apelos do estômago. Às vexes, a vontade de comer é mais forte que a melhor das intenções, as recomendações médicas e os ideais de beleza. Em nome de pequenos prazeres efêmeros, colocamos os bons propósitos, a auto-estima e até a saúde.

Porém, não basta atribuir à vontade do indivíduo todo o ônus de manter uma alimentação saudável. Hábitos alimentares são resultado de forças orgânicas e psíquicas que estão, em grande parte, fora do alcance de nossas decisões conscientes.

Qualquer pessoa que já fez dieta sabe disso. Hoje a obesidade é um dos grandes problemas de saúde pública mundial; o acúmulo de gordura corporal é o principal fator de risco para doenças cardiovasculares e diabetes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), só na Europa morrem todos os anos cerca de 250 mil pessoas em decorrência dos maus hábitos alimentares. No Brasil, 27 milhões de pessoas estão acima do peso e quase sete milhões são obesos.

A identificação da leptina, um peptídeo secretado pelas células adiposas e que desempenha um papel-chave na regulação do apetite e do metabolismo energético, foi um dos grandes marcos na pesquisa da obesidade. Descoberta em 1994 pelo biólogo Jeffrey M. Fridman, da Universidade Rockefeller, a leptina interage com receptores situados no núcleo ventral medial - região do hipotálamo conhecida como centro da saciedade -, sinalizando quando já se comeu o suficiente. Em condições ideais, o aumento dos depósitos de gordura produz sinais que inibem a ingestão de alimentos. Nos obesos, porém, há uma disfunção nessa retroalimentação mediada pela leptina.

Fatores hereditários explicam boa parte dos casos de obesidade e de dependência química; mutações já identificadas envolvem vários genes

O que acontece na obesidade é o mesmo mecanismo do diabetes tipo II, em que níveis elevados de glicose estimulam a secreção excessiva de insulina, de forma que os receptores dessa ficam dessensibilizados - por essa razão esse tipo de diabetes é chamado resistente à insulina. De forma similar, o excesso de gordura faz com que níveis de leptina se tornem muito altos, e os receptores no hipotalâmicos deixam de responder. O resultado é a sensação de insatisfação e a vontade de comer mais.

Apontar a leptina como único fator responsável pelos quilos a mais, entretanto, é um equívoco: inúmeros determinantes físicos e psíquicos contribuem para esse quadro considerado, na maior parte das vezes, não um transtorno em si, mas um sintoma.

Há muito tempo os cientistas já perceberam aspectos comuns entre o comportamento alimentar compulsivo e a dependência química. Um deles é o craving, descrito como um desejo intenso de ingerir algo muito específico, que pode ser chocolate, pizza, cerveja ou cocaína. Outro exemplo é o evidente aumento da ingestão de alimentos, quase sempre acompanhado de ganho de peso, experimentado por qualquer pessoa que pára de fumar.

Escondida nas profundezas do cérebro reside uma estrutura que nos ajuda a compreender o papel da compulsão alimentar na obesidade. Também conhecido como centro do prazer, o núcleo accumbens é um conjunto de neurônios comprovadamente envolvidos nos mecanismos de dependência. Importante na regulação da emoção e da motivação, ele é um local de convergência de fibras procedentes da amígdala, do hipocampo e dos lobos temporais, e emite projeções para regiões como córtex cingulado, lobos frontais e hipotálamo. Todas as substâncias que levam à dependência promovem a liberação de grandes quantidades do neurotransmissor dopamina nessa região, o que na prática se traduz como uma sensação de enorme prazer. A cocaína e a anfetamina, por exemplo, aumentam em até 15 vezes concentração de dopamina no núcleo accumbens e algo semelhante acontece com a morfina e a heroína. Mas o que isso tem a ver com a obesidade?

Uma das projeções do núcleo accumbens exerce comando direto sobre o hipotálamo, que regula, entre tantas coisas, o comportamento alimentar. Animais de laboratório modificados geneticamente para não produzir dopamina dão mostras inequívocas dessa estreita relação: perdem a motivação, deixam de comer e acabam morrendo de inanição. À medida que seu cérebro recebe doses periódicas do neurotransmissor, voltam a se alimentar normalmente. Em 2001, a psiquiatra Nora Volkow, hoje diretora do Instituto Nacional contra o Abuso de Drogas, em Bethesda, observou, por meio de tomografia de emissão de pósitrons (PETscan), uma correlação negativa entre índice de massa corporal (IMC) e concentração de receptores de dopamina no núcleo accumbens. Em outras palavras, quanto mais gordo o indivíduo menor a disponibilidade dos receptores dopaminérgicos. Os resultados sugerem que a compulsão alimentar seria uma forma de compensar a ausência de efeito do neurotransmissor. Teoricamente, a ingestão de comida deveria liberar mais dopamina, mas como aqueles receptores, por algum motivo desconhecido, estão escassos, a solução é comer mais ainda, dando origem a um círculo vicioso que também é a principal característica do abuso de drogas.

Além do núcleo accumbens, a amígdala é outra estrutura essencial para a compreensão da compulsão alimentar. Já na década de 30, o neurocientista alemão Heinrich Klüver e seu colega americano Paul Bucy lesionaram a amígdala de macacos e assim os transformaram em verdadeiras máquinas devoradoras: levavam à boca tudo o que fosse comestível, e muitas vezes também o que não era.

Responsável pelas reações de medo, a amígdala é uma estrutura muito antiga do ponto de vista evolutivo e de importância central para o sistema límbico. Seu papel sobre o comportamento alimentar em humanos foi demonstrado em 2001 por Kevin LaBar, do Centro de Neurociência Cognitiva da Universidade Duke. O pesquisador apresentou objetos comestíveis e não-comestíveis a nove indivíduos cuja atividade cerebral foi monitorada por meio de tomografia helicoidal.

Soando o alarme

Os participantes eram saudáveis, embora famintos por um jejum de oito horas que precedeu o experimento. Mas o desconforto durou pouco. Depois da primeira bateria de testes, eles puderam se deliciar com uma farta refeição, antes de serem novamente submetidos ao tomógrafo. Assim LaBar comparou a atividade cerebral das mesmas pessoas em duas situações: com fome e, depois, devidamente saciadas. Os resultados da primeira etapa do teste mostraram que nos cérebros dos esfomeados a amígdala entrara em franca atividade sempre que algo comestível surgia em seu campo de visão. Esse efeito não se manteve na segunda etapa, após a refeição, o que mostra que a amígdala funciona como um alarme no organismo.

Quase simultaneamente aos experimentos de LaBar sobre os mecanismos da fome e da saciedade, o neurocientista Clinton Kilts conduzia, na Universidade Emory, em Atlanta, realizaram estudos semelhantes com dependentes de cocaína. Os cientistas lhes mostravam fotos perturbadoras, como as típicas fileiras de pó branco, por exemplo. Observada pelo PETscan, a amígdala reagia de forma exacerbada tão logo os indivíduos puseram os olhos sobre a imagem.

Outra estrutura nitidamente envolvida na dependência química é a porção superior da órbita ocular do córtex frontal, mais conhecido como córtex orbitofrontal (COF), o qual tem grande participação na regulação do humor e no comportamento baseado em recompensa. Pacientes que sofreram lesão no COF em decorrência de traumatismo ou doença degenerativa geralmente apresentam dificuldades para controlar seus impulsos, falam tudo o que lhes vem à cabeça e manifestam suas compulsões tanto no jogo como na alimentação.

A bióloga Dana Small, da Universidade Noroeste, em Chicago, foi uma das primeiras a detalhar a participação do COF nas sensações de prazer decorrentes da ingestão de alimentos. Enquanto nove pessoas se deleitavam à vontade com seus chocolates preferidos, a pesquisadora observada a atividade de seus cérebros pelo PETscan. Juntamente com várias outras partes do córtex, sobretudo as responsáveis pela assimilação sensorial, a porção medial do COF vibrava intensamente. Pouco tempo depois, Small repetiu o experimento, mas com uma modificação crucial. Dessa vez, os voluntários deveriam consumir quantidades cada vez maiores de chocolate, de forma que o prazer de outrora se transformasse em sofrimento. Os resultados mostraram que o COF médio, antes em franca atividade, foi inibido. Enquanto isso, uma região vizinha, o COF lateral, entrou em ação.

O que todos esses estudos revelam é que vários mecanismos cerebrais subjacentes ao comportamento alimentar são muito semelhantes, se não os mesmos, aos implicados na dependência, seja de drogas como álcool ou cocaína, seja de jogo. Obviamente, nem toda obesidade pode ser explicada pelo comportamento alimentar compulsivo; em muitos indivíduos, o componente genético é muito forte. Na maioria dos casos, porém, o controle da ingestão de alimentos promove excelentes resultados.

Marketing Agressivo

O sucesso da indústria de fast-food não deixa dúvidas de que o comportamento alimentar é facilmente influenciável por estímulos externos. Entender o que se passa no cérebro dos gulosos certamente ajudará a desenvolver estratégias terapêuticas mais eficazes para a luta contra a epidemia global de obesidade.

De fato, alguns medicamentos usados na terapia contra o abuso de drogas têm ajudado pacientes obesos a manter a boca fechada por mais tempo. Antagonistas opióides (que neutralizam o efeito da morfina) como naloxone e o naltrexone, oferecem bons resultados. Drogas bloqueadoras dos receptores canabinóides também ajudam a controlar a compulsão alimentar. No entanto, não há pílula mágica e na maioria dos casos a perda de peso é lenta. Estudo de 2005 realizado pelo endocrinologista Luc Van Gaal, do Hospital Universitário da Antuérpia, Bélgica, concluiu que esses medicamentos fizeram os pacientes perder em média 7 kg por ano, ao passo que aqueles que tomaram placebo perderam quase 2 kg no mesmo período. Obviamente, emagrecer apenas com remédio é uma ingênua pretensão. Mudar os hábitos alimentares, de preferência com o acompanhamento de um nutricionista, é a combinação que proporciona melhores resultados. Mas é fácil falar...

Tantos os dependentes químicos quanto os obesos são estigmatizados pela sociedade, em parte por causa da crença muito disseminada de que abusar de comida ou de substâncias psicoativas é algo completamente sujeito ao controle voluntário - o que não é verdade.

Hoje, obesidade e abuso de drogas são considerados distúrbios multifatoriais com forte presença de componentes genéticos. Até 60% da predisposição à dependência química e cerca de 50% dos casos de obesidade podem ser atribuídos a causas hereditárias, apoiadas por fatores subjetivos e ambientais. Vários estudos já identificaram mutações igualmente importantes para a obesidade e a dependência, embora se saiba que a expressão de ambas depende da participação de vários genes.

Mas como não somos apenas produto de nossa carga genética, a interação com o meio é o que dá contorno ao quadro epidemiológico atual. Além da enorme oferta de alimentos de alto conteúdo calórico a preços muito acessíveis, os pesquisadores apontam o stress como um poderoso fator ambiental associado à propensão ao comportamento compulsivo relacionado tanto a drogas quanto à comida. Crianças estressadas, por exemplo, têm maior risco de ficar obesas ou de usar drogas na adolescência ou no início da vida adulta.

Além dos aspectos psíquicos, genéticos e psicossociais, também microorganismos podem influenciar as possibilidades de uma pessoa ser gorda ou magra. Segundo pesquisas recentes, a flora intestinal dos obesos tem maior proporção de microorganismos que ajudam na digestão dos alimentos. Estudos com camundongos sugerem que a obesidade poderia ser contagiosa. Quando certas bactérias foram transplantadas de animais gordos para outros magros, em pouco tempo os últimos aumentaram a quantidade de gordura corporal.

Revista Mente e Cérebro
Edição 169 - Fevereiro 2007
Oliver Grimm

Tradução de Saulo Krieger